Sons californianos na manhã curitibana

Agora de manhã, sábado de chuva em Curitiba, fui até a Raridade Disco comprar agulha nova pro toca-discos. Coloquei no som do carro o Forever Hasn’t Happened Yet, o excelente disco de 2005 do John Doe, apropriado para a ocasião. Um disco intimista, um pouco amargurado em alguns momentos, resignado em outros. Disco de gente grande, pra ouvir na chuva.

Agulha comprada, estava voltando pra casa e passei pertinho do Sebo Fígaro. Resolvi entrar pra dar uma olhada. Fui fuçar primeiro a sessão de vinil, e, numa dose de sorte, encontro o Live at the Whisky a Go Go on the Fabulous Sunset Strip, edição nacional. Capa em estado razoável, mas o LP em excelente estado, melhor que o meu. Preço da parada: R$ 10,00. Já reservei. Ouvir John Doe de manhã deu sorte, pensei.  Aí fui ver se tinha alguma coisa na seção de CDs. Aí sim o mais improvável aconteceu.

Lá estava um exemplar da edição norte-americana, de 1997, do Show World, o fabuloso último disco de estúdio do Redd Kross. Depois desse disco, o guitarrista Eddie Kurdzlel, que tinha entrado pra banda em 1993, morreu, e o grupo parou. Em 2006 o Redd Kross voltou a tocar, com Robert Hecker na guitarra, o mesmo que esteve na banda entre 1984 e 1991 e que é campeão dos 110 metros com barreiras (!).

Mais R$ 20,00, e o disco veio pra minha coleção. Impecável, exceto que o antigo dono, num rompante de delírio, resolveu destacar, à caneta, no encarte, algumas músicas – talvez as que mais gostou, ou que fosse gravar em uma coletânea, ou sabe-se lá o que passou pela cabeça do cidadão. Estão circuladas Pretty Please Me, You Lied Again, Girl God, Mess Around e Secret Life. Paciência, valeu a compra sem dúvida.

Já felizão com as aquisições, bati o olho no Car Bottom Cloth, do Lemonheads. A banda é de Boston, mas tem ligação com a California: Bill Stevenson e Karl Alvarez, do All e do Descendents, formaram com Evan Dando a banda nos shows de 2005, e lançaram o ótimo disco Lemonheads em 2006. R$ 13,00 pelo CD, também impecável. Um descontinho para quem já tinha comprado dois discos, e veio por déizão.

Agulha instalada, coloquei o New Day Rising, do Hüsker Dü, pra testar. Excelente, ouvindo bem todos os chiados. Uma bela manhã de sábado.

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O que OFF! e X têm em comum ?

Já mencionei que fico fascinado pelas interconexões entre bandas e artistas da cena californiana. O que seria uma conexão entre OFF! e X ?

Muita coisa, sem dúvida. Uma delas é que, no disco solo do John Doe, de 2006, For the Best of us, o baixista é o Steven McDonald, que era do Redd Kross e agora é do OFF!

O disco chegou pra mim essa semana e reparei isso, novidade pra mim.

É um relançamento, remasterizado, do EP For the rest of us, de 1998, com outras músicas das mesmas sessões de gravação, que acabaram ficando inéditas até então. Foi lançado como The John Doe Thing.

Também participam do disco outras figuraças: o guitarrista Smokey Hormel, que tocou com Johnny Cash, Tom Waits e Beck; o baterista Joey Waronker, também do Beck e do REM; e o Tony Marsico do Matthew Sweet, que toca baixo no disco, em algumas músicas, ao lado do Steven McDonald. O produtor é o Dave Way, o mesmo do excelente Forever Hasn’t Happened Yet, de 2005.

De John Doe a John Doe

Encontrei para vender o disco A Year in the Wilderness, trabalho solo do grande John Doe, conhecido vocalista e baixista do X, uma das bandas pioneiras do punk em Los Angeles.

Doe também é ator. Um dos seus filmes mais famosos é A Fera do Rock, título original Great Balls of Fire, sobre o Jerry Lee Lewis, com o Dennis Quaid no papel principal. Doe faz o papel do pai da Winona Ryder, prima de 13 anos do Jerry Lee, com quem ele casa. O tio tocava na banda do Jerry.

Durante boa parte da carreira do X, o guitarrista foi o Billy Zoom, o cara mais cool da face da Terra. Verdadeiro Guitar-Hero, Zoom foi, por muito tempo, técnico de guitarra do Brian Setzer. Ambos têm em comum a paixão pelas guitarras Gretsch das décadas de 1950 e 60.

Zoom tocou também com Gene Vincent e Etta James, o que demonstra todo seu talento para muito além do punk rock. A guitarra do X, realmente, era um caso à parte.

Nesse video aqui, Billy Zoom está tocando com a banda do Mike Ness, com Charlie Quintana (The Plugz, Agent Orange, Social Distortion, Izzy Stradlin and the Ju Ju Hounds) na bateria, Sean Greaves (Joykiller) na telecaster, Brent Harding (Social Distortion, The Steeplejacks) no baixo.

Aí o ciclo se fecha, porque, além de Brian Setzer e Mike Ness terem trabalhado junto com o chicanasso Quintana, ele também tocou com o John Doe, em sua carreira solo.