II Ramones Day em Curitiba – 2: Animal Boy

Meu disco top-2 do Ramones, depois de Halfway to Sanity, é o Animal Boy. É difícil imaginar um disco com capa mais estranha do que essa aí:

Animal Boy é um disco sensacional. Além de bem produzido pelo Jean Beauvoir, intenso trabalhador da música, que tocou no Plasmatics, pense só nas músicas.

A primeira é Somebody Put Something in my Drink. Essa música é famosa porque abre o lado D do Ramonesmania. Bateria marcada no início, vocal do Joey entra por cima meio rouco, forçado, e depois vêm baixo e guitarra num riff inesquecível. Composta pelo Richie, virou presença permanente nos shows da banda dali em diante. Conta a história dum cara que toma umas num bar e fica doidão, chuta a jukebox e briga com o chão, bebe mais ainda, não consegue pensar, e pede uma droga. E não é a única música de bebedeira do disco…

Depois vem Animal Boy, hardcore rapidão que começa com um riff do Johnny – que também soaria, dali em diante, em quase todos os shows deles. É parceria entre Dee Dee e Johnny Ramone.

A terceira é Love Kills, composta pelo Dee Dee, para a trilha sonora do filme Sid and Nancy, do Alex Cox. A música acabou não entrando no filme, mas conta a história de Sid Vicious e Nancy Spugen. Joey certa vez disse que o Alex Cox era meio mau caráter, e a banda acabou se desentendendo com ele. Foi a última música que Dee Dee cantou com a banda, errando a letra, no show de despedida do Palace, em 1996.

A quarta, novamente do Dee Dee, é Apemen Hop, um punk rock de quatro acordes clássico, com bateria reta. Joey canta lindamente essa música. Junto com a faixa-título, dá o tom da estética do disco, com o gorila e o chimpanzé da capa e da contracapa.

She Belongs to Me é uma baladona maravilhosa. Se não me engano, tem algum teclado por ali. É parceria do Dee Dee com o Jean Beauvoir, baixista e tecladista do Plasmatics, que produz o disco. Joey, outra vez, dá espetáculo nos vocais. A letra é bizarra: uma ameaça a um cara que quer roubar a mulher do compositor. É estranho imaginar Joey dizendo “You’re gonna be sorry if we have to fight” (!).

O lado A acaba com Crummy Stuff: “I’ve had enough of that crummy stuff”. Dee Dee certamente estava a falar de tudo o que havia em volta dele. Aliás, como ele mesmo já disse muitas vezes, todas as músicas que escreve são autobiográficas. Crummy Stuff é um clássico da autobiografia: “This could only happen to me”.

O lado B começa com uma música que emocionou todo mundo que a ouviu: My Brain is Hanging Upside Down. No single, chama-se Bonzo Goes to Bitburg, mas teve o nome recusado pelo Johnny Ramone, que jamais aceitaria uma crítica ao presidente republicano Ronald Reagan. Parceria entre Dee Dee, Joey e Beauvoir. A capa do single é excelente. No lado B da versão 12” desse single estão Go Home Ann, de Dee Dee e Mitch Leigh – será que é o mesmo dos musicais da Broadway ? – e Daytime Dilemma (Dangers of Love), de Joey e Daniel Ray, que saíra no excelente Too Tough To Die.

Aliás, os EPs que vieram para promover o Animal Boy são um caso à parte. Esse Bonzo Goes to Bitburg, por exemplo: a mesma banda que adaptou o selo presidencial para seu logo colocou o Ronald Reagan discursando em meio às tropas e aos mortos da segunda guerra.

Mental Hell faz chorar. Linda a música, desesperadora a letra, angustiante a atmosfera dela. O inferno mental de Joey, seu inferno privado, repleto de frustração, desgosto, irritação, que, dia após dia, nunca acaba. Joey sofria de transtorno obsessivo compulsivo, como relata Monte Melnick no livro que escreveu. Dizem que essa música ele compôs quando acabou seu relacionamento com a Angela. Olha que se fosse pra eu escolher a melhor música do Ramones dentre todas, Mental Hell estaria brigando pelo posto com ótimas chances.

Eat That Rat é outro hardcore porradão. Música feita por quem tinha raiva do mundo. A letra denuncia má distribuição de renda. Isso nos EUA !  De Dee Dee e Johnny.

Também do Dee Dee e do Johnny é a música seguinte, Freak of Nature. Joey canta com uma voz forçadona, parecida com Somebody Put Something in my Drink. Música de um minuto e meio, como a anterior, com letra na linha de Worm Man: “I need psychiatric therapy/ I could use a lobotomy/ Guess, I’ll never learn/ Suppose, I’ll always be a worm/ Got a ten inch erection/ A pimply complexion/ Man I got problems, I’ll bet you heard/ I’m completely misunderstood/ I’m a monstrosity/ I’m a human oddity/ Everybody stares at me/ I’m an outcast from society”. É o Mental Hell de Dee Dee, do mesmo lado B do mesmo disco. Ela remete ao resto da estética do disco: freaks, na foto de camarim da contracapa e no encarte, além de um segundo EP com as músicas Somebody Put Something in my Drink, Can’t Say Anything Nice – fantástica!, não aparece na versão 7”, só na 12” – e Something to Believe In, que traz, na capa, personagem do filme Freaks, o mesmo que inspirou Pinhead e Gabba Gabba Hey.

Hair of the Dog é uma música sobre ressaca. Joey cara acorda podrão, tenta tudo pra sarar, coca, pepsy, sai da cama pensando se nunca vai aprender, que nunca mais vai beber de novo. Aí, pra curar a ressaca, toma mais uma !  Gau Gau ensinou que “hair of the dog” é aquela cerveja que o cara toma pra curar a ressaca, pegando um pouco do veneno pra sarar do próprio veneno. Tem a ver com cachorro raivoso, que morde e aí, pra não pegar raiva, o cara passa o pelo do cachorro em cima da mordida…

O disco fecha com outra música de emocionar. Something to Believe In, outra parceria do Dee Dee com o Jean Beauvoir. Tem aquele toque de teclado que parece xilofone, como em My Brain is Hanging Upside Down. Joey canta espetacularmente. Bateria retona do Richie, um fodão do instrumento. O clipe está gasto no meu VHS do Lifestyles of the Ramones, de tanto que assisti. Ramones Aid… Confira aqui, Circle Jerks, X, B-52’s, Afrika Bambaataa, Rodney Bingemheimer, Holly Beth Vincent, Ted Nugent, Weird Al Yankovic e outros conhecidos.

O logo do Ramones Aid e do Hands Across your Face – parodiando Hands Across America – aparecem no EP de Crummy Stuff, que tem essa música e (And) I Don’t Wanna Live This Life – excelente ! – no lado B. Esta última, depois, foi lançada no All The Stuff, com o nome I Don’t Wanna Live This Life (Anymore).

Animal Boy é meu top 2, mas, ao escrever isso ouvindo o disco, quase troquei por Halfway to Sanity e coloquei no top 1. Segue, abaixo, uma foto da banda na época, com o Richie. Vejam que eles estão na frente da capa do Subterranean Jungle, meu top-qualquer-coisa, e o Marky aparece ao lado do Dee Dee.

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7 pensamentos sobre “II Ramones Day em Curitiba – 2: Animal Boy

  1. Diz a lenda, que Richie e sua namorada, pra não gastarem com bebidas nas boates, bebiam os drinks que as pessoas deixavam na mesa ou no bar enquanto iam dançar. Somebody put Something in my Drink, foi inspirada no que aconteceu com ele quando bebeu um drink que alguém tinha posto “alguma coisa”.

  2. gau gau escrevendo o que eu iria escrever.

    valeu.

    só corrige tbém o nome do daniel… rEy.

    abrax

    ps. excelente essa série ramônica !!!

  3. Esqueci de dizer que o Halfway to Sanity é produzido pelos próprios Ramones e o Daniel Rey, único que eles mesmos produziram.
    Nunca tinha reparado que o nome do Daniel Rey era com “e”.

  4. “Bonzo Goes To Bitburg” foi lançada (em ’85) como single na Inglaterra antes de entrar no Animalboy (de ’86). Foi composta para criticar a visita de Reagan ao cemitério na cidade de Bitburg na Alemanha Oriental (comunista), tal cemitério é onde encontra-se enterrado somente o exército nazista, entre eles alguns da Waffen-SS, elite do exército que ajudou a tocar os campos de concentração e exteminação de judeus. Em tal visita, Reagan, como uma marionete nas maos de seus assessores (imagino eu), colocou uma coroa de flores em respeito e na sequencia visitou uma base aérea próxima, que serviu como base para a Luftwaffe.
    Como um bom judeu, Joey resolveu escreveu uma música sobre o assunto e contou com a ajuda do DeeDee… posteriormente Mickey Leigh, irmão do Joey, disse que a maioria da música foi composta pelo próprio DeeDee, apesar de todos darem os créditos à Joey.

    P.S.: Tudo isso só pude colocar aqui por ter lido sobre isso no Wikipedia, em um dos melhores textos sobre música já colocados por lá. Cheio de referências e detalhes sórdidos.

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